“Falem mal, mas falem de mim” como estratégia

Juliano Domingues
Jornalista e Cientista Político
Professor de Comunicação & Política da Universidade Católica de Pernambuco
juliano@unicap.br

 

Se você costuma falar mal das pessoas, cuidado. Quem recebe a mensagem tende a atrelar avaliações e adjetivos negativos ao emissor e não ao alvo da crítica. É o que apontam evidências de estudos sobre a importância dos sentimentos no comportamento do eleitor.

 

No início deste ano, uma reportagem publicada na revista Veja tratou a respeito da aplicação de técnicas da neurociência ao contexto eleitoral. Na matéria, o repórter afirma que esse tipo de análise foi aplicada à campanha de reeleição do então governador Eduardo Campos em 2010.

 

Agora, nas eleições 2014, essa estratégia também parece se mostrar presente. Tem-se a impressão de que o comportamento de pré-candidatos é  guiado por uma das premissas centrais de estudos na área: frases negativas não pegam bem, mesmo se for para criticar oponentes.

 

Atacar o outro não seria, portanto, um caminho inteligente se o objetivo é conquistar votos. Além de ser ineficaz do ponto de vista eleitoral, essa tática possui o potencial do efeito reverso – o que você diz pode se voltar contra você.

 

Os dois principais pré-candidatos ao governo do Estado, Paulo Câmara (PSB) e Armando Monteiro (PTB), parecem atentos a esse aspecto. Tomemos como exemplo dois momentos recentes, alvo de matéria no Blog da Folha, com o título Geraldo Julio troca Farpas com Armando Monteiro Neto.

 

Momento 1

 

O pré-candidato do PSB, Paulo Câmara, tem evitado criticar publicamente seu principal adversário, o senador Armando Monteiro (PTB). Quem tem assumido esse papel é o prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB).

 

Como se trata, aparentemente, de um comportamento regular desse grupo desde o momento em que o nome de Paulo Câmara foi referendado pelo ex-governador Eduardo Campos, é possível levantar a hipótese de que se trata de uma estratégia em termos de comunicação político-eleitoral.

 

Geraldo Júlio, por não estar na disputa, seria o homem do embate, das ocasiões em que, provavelmente, mensagens de conteúdo negativo em relação a outros candidatos devem ser emitidas. Enquanto isso, Paulo Câmara seria poupado do confronto. A ele, estaria reservada a chamada “agenda positiva”.

 

Declaração atribuída ao prefeito do Recife noticiada no dia 23 de maio parece ilustrar esse padrão. Geraldo Júlio teria afirmado que a campanha de Armando Moteiro era baseada em duas mentiras e uma omissão. Os trechos abaixo reproduzem a declaração do prefeito.

 

A primeira suposta mentira: Armando tem experiência administrativa.

 

“O senador Armando Monteiro não tem nenhuma experiência administrativa para se colocar como uma pessoa experiente para governar Pernambuco”

 

A segunda suposta mentira: Armando é o candidato do governador Eduardo Campos.

 

“O senador não é o candidato de Eduardo Campos”

 

A suposta omissão: o petebista omite que é contra os trabalhadores.

 

“O senador sempre votou contra os trabalhadores. Todos os votos dele no Congresso Nacional foram contra os trabalhadores”

 

Ao, aparentemente, destacar o prefeito Geraldo Júlio para o embate com Armando Monteiro, o PSB cumpre, pelo menos, dois objetivos: atacar politicamente seu adversário com o intuito de desestabilizá-lo emocionalmente e, ao mesmo tempo, preservar a imagem do seu pré-candidato, já que as críticas não foram feitas por ele.

 

Por outro lado, Geraldo Júlio corre o risco de o eleitorado atribuir a ele a imagem que tenta atrelar ao seu adversário, a saber: mentiroso e omisso. Supõe-se que esse risco pode ser ainda maior diante de acusações desprovidas de informações factuais que a sustentem.

 

Qual a capacidade de convencimento, por exemplo, da sentença “Todos os votos dele no Congresso Nacional foram contra os trabalhadores”? Além de fragilizar o discurso de quem acusa, essa amplitude e subjetividade podem não só convencer o receptor, mas também sugerir desequilíbrio emocional por parte de quem emite a mensagem.

 

Momento 2

 

Diante das críticas, Armando Monteiro se comportou de maneira serena e adotou um tom irônico nas respostas. Esse parece ser o padrão adotado pelo petebista. Ao mesmo tempo, o senador tem procurado expor o que, de fato, aparenta ser uma estratégia do PSB.

 

“Mandaram ele (Geraldo Julio) cumprir um papel político e aí ele vem para o debate político e vem mal. (…) Geraldinho não tem treino ainda para o debate político. Esse é o problema. Eu fui responsável também por isso, pois o apoiei”

 

Observe que o senador utiliza um diminutivo para se referir ao prefeito Geraldo Júlio. No contexto do discurso, não sugere uma ofensa, mas uma aproximação, uma conotação, em alguma medida, carinhosa vinda de alguém com mais equilíbrio e experiência que compreende e perdoa a ansiedade do outro, jovem e imaturo.

 

Essa tática também pode ser ilustrada pelo trecho seguinte:

 

“Ele não sabe que a função pública não deriva apenas de quem participa da função Executiva, mas também dos poderes que constitui o Estado”

  

O senador assume, ainda, uma postura mais incisiva ao criticar seu interlocutor. Aliás, não somente ele – os alvos são Geraldo Júlio e Paulo Câmara. Os dois são iniciantes na disputa eleitoral, foram nomeados secretários e indicados à disputa nas urnas pelo ex-governador Eduardo Campos. Entretanto, a referência a ambos é feita por Armando Monteiro de maneira indireta:

 

“Nunca fui da burocracia. Essa experiência eu não tenho, mas as minhas funções foram sempre exercidas através do voto. E alguns sempre estiveram na vida pública pela via da nomeação”

 

Por último, vale destacar a forma como o senador Armando Monteiro justifica as referências que tem feito ao ex-governador Eduardo Campos, presentes, inclusive, em inserções de rádio e TV do PTB estadual:

 

“Eu também não descontruo o Governo Eduardo Campos porque foi exitoso e nós fizemos parte dele. Também não faço com Eduardo o que eles estão fazendo com Dilma. Isso é uma posição extremamente oportunista de dizer que ‘enquanto estive lá era tudo bom, quando saí ficou tudo ruim’”

 

Embora leia-se a palavra “oportunista”, observe que essa resposta também possui caráter de crítica indireta. Ela é aplicável tanto ao plano estadual quanto ao nacional.

 

Há, no entanto, uma característica desse trecho que merece destaque: o senador atribui “traição” e “ingratidão” ao comportamento dos seus opositores, mas o faz sem citar essas palavras diretamente. Mérito do emissor da mensagem. Ao agir assim, o senador se comporta estrategicamente e reduz o risco de ver sua imagem carregada negativamente por essas duas palavras. Já que, nesse caso, o emissor da mensagem é o próprio candidato, esse tipo de comportamento é fundamental.

 

Por outro lado, é razoável imaginar que Geraldo Júlio continuará à vontade para o embate ao longo da campanha. Como ele não é candidato, imagina-se que uma reação por parte do eleitor às suas declarações, neste momento, não representaria maior prejuízo a ele ou ao seu partido.

 

Mas cabe um questionamento: qual a chance deste mesmo eleitor atrelar o discurso negativo do atual prefeito ao candidato por ele defendido? Quem sabe? Esse é um dos riscos do confronto político.

Por que o tempo de TV importa?

No texto da semana passada, abordamos o tema das inserções partidárias e a forma como os partidos intepretam a lei que regulamenta essa prática (clique aqui e leia). O gancho da reflexão foi a veiculação de programas do PTB estadual.

No artigo abaixo, apresentamos uma breve análise da relevância desse tipo de propaganda e do seu conteúdo, a partir das ideias de videopolítica e discurso político. A pergunta central é: por que a TV importa tanto nas estratégias políticas e eleitorais?

Boa leitura!

 

Videopolítica e a sedução da imagem

O período pré-eleitoral é marcado por negociações em torno de possíveis alianças. Na mesa de barganha, entre outros pontos, destaca-se o tempo de televisão que ela pode render.

Quanto maior o peso dos aliados, maior também o tempo do candidato nas transmissões. Sobre esse tema, vale a leitura da matéria de Branca Alves intitulada Nanicos praticamente vão sumir do guia da televisão. Leia, também, o comentário de Inaldo Sampaio Tempo de TV do PSB já é maior que o de Marina.

Mas, por que a exposição na TV importa tanto? Os conceitos de videopolítica e de discurso político podem nos ajudar a responder essa pergunta. Afinal de contas, conceitos servem justamente para isso: nos ajudar a entender como o mundo funciona.

Teorias e conceitos são como redes que o pescador lança ao mar, conforme célebre analogia do filósofo da ciência Karl Popper. Entretanto, ao invés de peixes, os seus trançados capturam a realidade para ela seja examinada com mais afinco e, assim, melhor compreendida.

Por isso, fazemos referência aqui aos conceitos de videopolítica e de discurso político. Entemos que, a partir deles, é possível compreender melhor a importância das inserções partidárias e eleitorais na TV.


Você é um Homo videns?

No sistema global de processamento de comunicação e informação do mundo contemporâneo, a televisão desempenha papel de destaque. O mundo social é descrito-prescrito pela televisão, que “se torna o árbitro do acesso à existência social e política”, como afirmou o sociólogo Pierre Bourdieu em seu livro Sobre a televisão.

Giovanni Sartori, um dos mais prestigiados teóricos da Ciência Política, desenvolveu essa ideia no livro Homo videns, televisão e pós-pensamento. De acordo com ele, vive-se o tempo do Homo videns e da videopolítica, no qual a escrita foi destronada pela imagem (daí o termo videns) e o vídeo transformou radicalmente a maneira de ser políticos e de conduzir a política.

Em outras palavras, a televisão seria muito mais do que uma ferramenta de comunicação. Ela seria, para Sartori, um instrumento “antropogenético”, capaz de gerar um novo ser humano – justamente o Homo videns, sucessor do Homo sapiens.

Sob essa perspectiva, o cenário não seria tão positivo assim, pelo contrário. Para o Homo videns, a imagem substitui a palavra, a forma é mais importanto do que o conteúdo e, assim, o debate político se torna frágil e esvaziado. Nessa sociedade, o vídeo possui uma influência brutal nos processos políticos, a ponto de condicionar o comportamento de governos e grupos de oposição.

A televisão teria a capacidade, portanto, de direcionar a ação e o discurso políticos. Esse já seria um bom motivo para partidos e políticos disputarem espaço na TV. Os números, aliás, mostram que motivos para isso é o que não falta.

 

O alcance das imagens

A TV ainda é o grande veículo de comunicação do País. Boa parte dos brasileiros, 65%, assiste à televisão todos os dias da semana. De segunda à sexta, são, em média, 3h29 diárias; nos fins de semana, 3h32.

Outros números ajudam a entender o poder desse veículo de comunicação, sobretudo a TV aberta. Em todo o País, 67% da população assiste somente à televisão aberta. Em Pernambuco, esse número é bem maior: chega a 83%.

Os dados são de pesquisa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República sobre hábitos de consumo de mídia, divulgada este ano (clique aqui e acesse os dados completos da pesquisa).

Um amplo estudo do Ipea sobre o setor de comunicação no País apresenta outra informação relevante, dessa vez sobre a penetração desse equipamento das nossas residências. A TV está presente em 96,9% dos domicílios brasileiros, conforme gráfico abaixo:

 

Imagem Fonte: Ipea, 2010.

 

Essa informação é parte da investigação Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil.

 

Você será seduzido?

Vamos, mais uma vez, recorrer a um conceito para entermos melhor o que esses dados representam. Trata-se da concepção de discurso inserida no contexto político. Quem nos ajuda nessa missão é o linguista francês Patrick Charaudeau, teórico de um campo de estudo chamado análise do discurso.

Em seu livro O discurso político, ele afirma o seguinte: “A política depende da ação e se inscreve constitutivamente nas relações de influência social, e a linguagem, em virtude do fenômeno de circulação dos discursos, é o que permite que se constituam espaços de discussão, de persuasão e de sedução nos quais se elaboram o pensamento e a ação políticos”.

Em poucas palavras, pode-se afirmar que o discurso político é condição necessária à ação política, por conferir motivação e sentido a ela. Ele deve ser entendido, sobretudo, como um ato de comunicação.

Imagine, agora, o alcance de um pronunciamento ou de uma inserção eleitoral ou partidária na TV. Imagine, principalmente, o potencial efeito daquelas inserções em formato de pílula ao longo da programação, as quais pegam o eleitor/telespectador de surpresa.

Não é de se espantar, portanto, que tempo na TV seja um dos temas centrais quando pré-candidatos se reúnem com potenciais aliados para tratar de alianças. Quanto maior o tempo de TV, maior o poder de barganha do ator político na mesa de negociação. E maior a chance de você, eleitor, ser seduzido pelo discurso do candidato.

 

 

Inserções partidárias e racionalidade

Juliano Domingues
Jornalista e Cientista Político
Professor de Comunicação & Política da Universidade Católica de Pernambuco
juliano@unicap.br

 

A veiculação dos programas do PTB estadual em TV, rádio e na internet foi, certamente, um dos principais fatos político-eleitorais desta semana em Pernambuco. As inserções estão previstas na Lei 9.096, de 1995, a qual dispõe sobre partidos políticos e regulamenta os artigos 17 e 14, § 3º, inciso V, da Constituição Federal.

Sobre esse fato, dois aspectos merecem ser ressaltados e analisados aqui:

(i) a interpretação do que diz a lei;

e

(ii) a relevância desse tipo de conteúdo audiovisual no contexto da política.

No texto de hoje, abordaremos o primeiro aspecto. Na próxima semana, traremos uma análise da relevância desse tipo de propaganda e do seu conteúdo, a partir do que a teoria política chama de “videopolítica”.

 

O que diz a lei?

Na Lei 9.096/95, a respeito da finalidade da propaganda partidária gratuita, lê-se:

 

Art. 45. A propaganda partidária gratuita, gravada ou ao vivo, efetuada mediante transmissão por rádio e televisão será realizada entre as dezenove horas e trinta minutos e as vinte e duas horas para, com exclusividade:
        I – difundir os programas partidários;
        II – transmitir mensagens aos filiados sobre a execução do programa partidário, dos eventos com este relacionados e das atividades congressuais do partido;
        III – divulgar a posição do partido em relação a temas político-comunitários.
        IV – promover e difundir a participação política feminina, dedicando às mulheres o tempo que será fixado pelo órgão nacional de direção partidária, observado o mínimo de 10% (dez por cento). (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)

 

Ao mesmo tempo, a Lei aborda aquilo que não se deve fazer nesse espaço de propaganda. Observe:

 

§ 1º Fica vedada, nos programas de que trata este Título:
        I – a participação de pessoa filiada a partido que não o responsável pelo programa;
        II – a divulgação de propaganda de candidatos a cargos eletivos e a defesa de interesses pessoais ou de outros partidos;
        III – a utilização de imagens ou cenas incorretas ou incompletas, efeitos ou quaisquer outros recursos que distorçam ou falseiem os fatos ou a sua comunicação.

 

Conforme prevê a legislação, trata-se de espaço para propaganda “partidária” e não “eleitoral”. Espera-se, por isso, que o conteúdo destaque ideias e, não necessariamente, pessoas. Essa expectativa é ainda mais forte para os casos em que essas pessoas circulam no meio político como “pré-candidatas”.

A propaganda partidária gratuita seria, portanto, um espaço em que deveriam predominar os aspectos programáticos da instituição “partido político”. Porém, não parece ser essa a regra, principalmente em momentos que antecedem convenções partidárias e eleições.

Quando os chamados “pré-candidatos” já estão praticamente definidos, é comum os partidos intepretarem de maneira instrumental o texto da lei para divulgar a imagem de seu provável – ou muito provável – candidato nas próximas eleições. E essa divulgação ocorre apesar do risco de sanção por parte da Justiça Eleitoral.

Para os infratores, a Lei prevê a seguinte punição:

 

§ 2o O partido que contrariar o disposto neste artigo será punido: (Redação dada pela Lei nº 12.034, de 2009)
        I – quando a infração ocorrer nas transmissões em bloco, com a cassação do direito de transmissão no semestre seguinte; (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)
        II – quando a infração ocorrer nas transmissões em inserções, com a cassação de tempo equivalente a 5 (cinco) vezes ao da inserção ilícita, no semestre seguinte. (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)

 

Em caso de infração, a Lei determina a cassação de tempo. Entretanto, observe que a punição ao partido que vier a ser condenado ocorre somente no semeste seguinte, quando não há eleições.

Não seria razoável questionar, então, se essa divulgação ocorre, justamente, por conta do tipo de sanção prevista por parte da Justiça Eleitoral? Na prática, o partido não teria incentivo algum para cumprir o que diz a legislação. É o que se pode supor, se levarmos em conta a ideia de “pressuposto da racionalidade”.

 

Racionalidade

A racionalidade nada mais seria do que uma correspondência ótima entre fins e meios. George Tsebelis, teórico da ciência política, sustenta em sua obra Jogos Ocultos que:

a atividade humana é orientada pelo objetivo e é instrumental e que os atores individuais e institucionais tentam promover ao máximo a realização de seus objetivos. A esse pressuposto fundamental chamo “pressuposto da racionalidade” (TSEBELIS, 1998, p. 31).

Boa parte da teoria política sugere que políticos e partidos são atores guiados pela racionalidade, isto é, que agem de maneira racional, uma premissa adaptada da economia a interpretações da ciência política. O comportamento instrumental prevê a adoção de uma estratégia adequada para se atingir determinado fim. Ele seria reflexo dessa racionalidade.

Portanto, se a punição for branda diante do benefício da infração, o ator tende a optar pela infração. Em outras palavras, “tudo vale a pena se a multa for pequena”. Na prática, significa que indivíduos e/ou instituições tomam decisão a partir de cálculos de custo-benefício. Exemplo: se a alternativa B for mais vantajosa politicamente do que a alternativa A, se traz mais benefício do que prejuízo, espera-se que o ator opte pela alternativa B.

Ao relacionar esse pressuposto ao caso da elaboração de programas de rádio e TV, pode-se supor que, a princípio, os partidos se veem diante de, pelo menos, duas alternativas:

 

(A) difundir programa partidário de forma impessoal, com destaque, unicamente, às ideias do partido e, assim, não correr riscos de serem acusados de desrespeito ao que diz a Lei 9.096/95;

ou

(B) utilizar a propaganda partidária gratuita para difundir sobretudo as ideias e imagem do provável candidato do partido nas próximas eleições e, assim, correr o risco de serem acusados de desrespeito ao que diz a Lei 9.096/95.

 

A história e a lógica já mostraram que não é difícil prever o comportamento de determinado partido diante de um cenário como esse.

Vejamos:

 

se políticos e partidos são atores racionais, isto é, se tendem a optar pelo caminho que lhes traz mais vantagem e menos prejuízo;

e

se o benefício em casos desse tipo (ou seja, a divulgação da imagem do candidato que, espera-se, pode se refletir em votos) é maior do que o prejuízo (punição)…

então

é possível supor que determinado partido fará a opção pela alternativa B.

 

A divulgação da imagem do candidato, sobretudo pelo rádio e pela TV, é parte extremamente importante do processo de convencimento do eleitor. A mensagem chega a milhares de residências de surpresa, entre um bloco e outro da novela ou do telejornal.

Diante do que prevê a Lei em termos de sanção, não é de se estranhar que, estrategicamente, os partidos optem por aproveitar esse espaço para difundir a imagem do seu candidato. A propaganda partidária serve, nesse caso, como instrumento para atingir esse fim.

E a impressão que se tem é a de que, em maior ou menor medida, todos os partidos com pré-candidato fazem isso, uma vez que o benefício tende a ser bem maior do que o possível prejuízo. No próximo texto, abordaremos o porquê disso, a partir da reflexão sobre “videopolítica”.

 

Vídeo do PTB

Você pode assistir às inserções do PTB clicando no link abaixo:

http://www.folhape.com.br/blogdafolha/?p=165979

Dica de leitura

Sobre racionalidade, uma obra fundamental é o livro de Tsebelis. Abaixo, segue a referência:

TSEBELIS, George. Jogos ocultos: escolha racional no campo da política comparada. São Paulo: Edusp, 1998.

 

Política tributária e eleições em Pernambuco: o que faz você feliz?

Juliano Domingues da Silva
Jornalista e Cientista Político

Professor de Comunicação & Política da Universidade Católica de Pernambuco
juliano@unicap.br

Esqueça educação, saúde e segurança. Curiosamente, a pré-campanha ao governo do Estado de Pernambuco em 2014 tem sido marcada por um tema pouco comum em tempos de eleição: política tributária.

Apesar de se tratar de um debate fundamental, cujas consequências influenciam praticamente todos os aspectos da vida da população, é uma discussão com prazo de validade. A dinâmica da comunicação dos candidatos se encarregará de tirá-la de cena e mandá-la, novamente, para os gabinetes recheados de planilhas, cálculos e especialistas engravatados.

Embora os dois principais pré-candidatos ao executivo estadual – Paulo Câmara (PSB) e Armando Monteiro (PTB) – tenham relação direta com o assunto, não é difícil imaginar que o sepultamento desse debate deve ocorrer em breve – se não já está ocorrendo.

Alguns elementos empíricos, conceituais e filosóficos podem ajudar a antever e interpretar o desdobramento do debate pré-eleitoral, com a substituição desse tema por, provavelmente, saúde, educação e segurança.

Board room politics não interessa

Num contexto temático desse tipo, surge quase que naturalmente a pergunta: “será que o eleitor está interessado em discutir política tributária?”. A resposta é “não”, caso se tome como referência pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o IBOPE, divulgada no início deste ano.

O resultado é previsível: para 49% dos 15.414 entrevistados, o que interessa mesmo é saúde. Depois, segurança (31%) e educação (28%). Outras pesquisas tendem a apresentar dados semelhantes.
Além disso, política tributária pode ser classificada como política “de sala de reunião” ou “de gabinete” – board room politics. Essa tipologia, desenvolvida por teóricos do campo da administração e de políticas públicas, é largamente utilizada em análises de casos concretos.

O tema pode ser interpretado como pouco saliente e complexo. Uma política pública pode ser considerada saliente em função do número de pessoas por ela atingida de maneira significativa; e complexa quando levanta questões a serem respondidas somente por especialistas.

Políticas “de sala de reuniões” ou “de gabinete” exigem a participação de especialistas técnicos para sua elaboração devido ao alto grau de complexidade, ao mesmo tempo em que não despertam a atenção do público em geral – ou seja, possuem baixo grau de saliência. Convenhamos: não é em qualquer esquina que se discute carga tributária como quem debate futebol.

Entra por um ouvido; sai pelo outro

Some-se a esse cenário outro fator, desta vez previsto pelas teorias da comunicação: o receptor da mensagem é mais simpático a apreender conteúdos com os quais concorda ou sobre os quais já possui algum conhecimento. Nesses casos, há menos resistência durante o processo de decodificação.

Em outras palavras, o que não se enquadra nesse perfil corre sério risco de, como se costuma dizer, entrar por um ouvido e sair pelo outro. Ou seja, tendemos a escutar só que queremos. É a chamada recepção seletiva.

O que nos desagrada, contraria ou não compõe nosso repertório acaba descartado. Alguém discorda que, de um modo geral, política tributária é um assunto um tanto desagradável para um bate-papo? Apesar disso, Paulo Câmara (PSB) e Armando Monteiro (PTB) têm abordado o assunto com certa frequência em aparições públicas e em entrevistas a veículos de comunicação.

Por quê? É possível levantar algumas hipóteses.

Provavelmente, o fazem por se sentirem à vontade para discutir o assunto. Ambos possuem experiência na área e, não por acaso, tomam a iniciativa de agendar a pauta da pré-campanha com esse tema.

Ao mesmo tempo, pode-se supor que, por enquanto, os dois agem com mais autonomia, menos guiados por pesquisas eleitorais e equipes de comunicação responsáveis por sugerir ao candidato que ele fale sobre aquilo que o eleitor quer ouvir.

Manter esse tema em evidência, nesse momento de pré-campanha, pode, ainda, ter uma motivação estratégica e benéfica para as contas da campanha: conquistar apoio do empresariado a partir da formulação de propostas de políticas tributárias.

Financiadores são racionais, agem segundo a regra do menor custo e, por isso, tendem a injetar recursos em campanhas de candidatos com propostas que os beneficiem no futuro. E se há algo que pode beneficiar potenciais financiadores ligados ao meio empresarial é política tributária.

O que faz você feliz?

Uma rede de supermercados cansou de perguntar em uma campanha publicitária recente: “o que faz você feliz?”. O comercial, de causar inveja àquelas propagandas de margarina cheia de gente sorridente, poderia ser só mais um vídeo bem bolado.

Mas, se pensarmos em comunicação em tempo de eleições, é mais do que isso.

O conteúdo toca num ponto fundamental. Perguntar “o que faz você feliz?” num contexto de governança possui raízes profundas na filosofia política utilitarista, cuja aplicação ao campo da comunicação serve de base para se definir estratégias de relação entre candidato e eleitor. A depender das respostas mais comuns, o discurso do candidato tende a variar ou não, adequando-se às expectativas de quem vota.

Pois bem, à primeira vista pode até não parecer mas política tributária tem um tremendo potencial para “fazer você feliz”. Entretanto, por se tratar de um tema de pouco apelo popular (isto é, possui baixa saliência, alta complexidade e é vítima da recepção seletiva), logo deve sair de cena e ceder lugar àquilo que parece atrair maior atenção do eleitorado.

Saúde, educação e segurança dão, potencialmente, mais audiência, por serem temas presentes no repertório da população em geral, além de menos abstratos. Há menos problema de recepção seletiva e mais saliência. O tempo de campanha é curto e, por exclusão, o debate sobre política tributária deve ser descartado ou perder consideravelmente o espaço até então ocupado.

Outro ponto: os candidatos devem perder gradativamente sua autonomia para os especialistas em estratégias eleitorais. O discurso adequado sob medida àquilo que o eleitor quer ouvir tende a prevalecer e questões relacionadas a tributação devem voltar às salas de reuniões, aos gabinetes.

Infelizmente. Porque se há algo que possui um tremendo potencial para “fazer você feliz” – com consequências para a saúde, educação e segurança – é uma política tributária que beneficie o cidadão.

Links

Acesse aqui a matéria sobre a pesquisa CNI e Ibope

Veja o comercial do Pão de Açúcar com o tema “O que faz você feliz?”

 

Publicado no Blog da Folha em 06 de maio de 2014