Por que o tempo de TV importa?

No texto da semana passada, abordamos o tema das inserções partidárias e a forma como os partidos intepretam a lei que regulamenta essa prática (clique aqui e leia). O gancho da reflexão foi a veiculação de programas do PTB estadual.

No artigo abaixo, apresentamos uma breve análise da relevância desse tipo de propaganda e do seu conteúdo, a partir das ideias de videopolítica e discurso político. A pergunta central é: por que a TV importa tanto nas estratégias políticas e eleitorais?

Boa leitura!

 

Videopolítica e a sedução da imagem

O período pré-eleitoral é marcado por negociações em torno de possíveis alianças. Na mesa de barganha, entre outros pontos, destaca-se o tempo de televisão que ela pode render.

Quanto maior o peso dos aliados, maior também o tempo do candidato nas transmissões. Sobre esse tema, vale a leitura da matéria de Branca Alves intitulada Nanicos praticamente vão sumir do guia da televisão. Leia, também, o comentário de Inaldo Sampaio Tempo de TV do PSB já é maior que o de Marina.

Mas, por que a exposição na TV importa tanto? Os conceitos de videopolítica e de discurso político podem nos ajudar a responder essa pergunta. Afinal de contas, conceitos servem justamente para isso: nos ajudar a entender como o mundo funciona.

Teorias e conceitos são como redes que o pescador lança ao mar, conforme célebre analogia do filósofo da ciência Karl Popper. Entretanto, ao invés de peixes, os seus trançados capturam a realidade para ela seja examinada com mais afinco e, assim, melhor compreendida.

Por isso, fazemos referência aqui aos conceitos de videopolítica e de discurso político. Entemos que, a partir deles, é possível compreender melhor a importância das inserções partidárias e eleitorais na TV.


Você é um Homo videns?

No sistema global de processamento de comunicação e informação do mundo contemporâneo, a televisão desempenha papel de destaque. O mundo social é descrito-prescrito pela televisão, que “se torna o árbitro do acesso à existência social e política”, como afirmou o sociólogo Pierre Bourdieu em seu livro Sobre a televisão.

Giovanni Sartori, um dos mais prestigiados teóricos da Ciência Política, desenvolveu essa ideia no livro Homo videns, televisão e pós-pensamento. De acordo com ele, vive-se o tempo do Homo videns e da videopolítica, no qual a escrita foi destronada pela imagem (daí o termo videns) e o vídeo transformou radicalmente a maneira de ser políticos e de conduzir a política.

Em outras palavras, a televisão seria muito mais do que uma ferramenta de comunicação. Ela seria, para Sartori, um instrumento “antropogenético”, capaz de gerar um novo ser humano – justamente o Homo videns, sucessor do Homo sapiens.

Sob essa perspectiva, o cenário não seria tão positivo assim, pelo contrário. Para o Homo videns, a imagem substitui a palavra, a forma é mais importanto do que o conteúdo e, assim, o debate político se torna frágil e esvaziado. Nessa sociedade, o vídeo possui uma influência brutal nos processos políticos, a ponto de condicionar o comportamento de governos e grupos de oposição.

A televisão teria a capacidade, portanto, de direcionar a ação e o discurso políticos. Esse já seria um bom motivo para partidos e políticos disputarem espaço na TV. Os números, aliás, mostram que motivos para isso é o que não falta.

 

O alcance das imagens

A TV ainda é o grande veículo de comunicação do País. Boa parte dos brasileiros, 65%, assiste à televisão todos os dias da semana. De segunda à sexta, são, em média, 3h29 diárias; nos fins de semana, 3h32.

Outros números ajudam a entender o poder desse veículo de comunicação, sobretudo a TV aberta. Em todo o País, 67% da população assiste somente à televisão aberta. Em Pernambuco, esse número é bem maior: chega a 83%.

Os dados são de pesquisa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República sobre hábitos de consumo de mídia, divulgada este ano (clique aqui e acesse os dados completos da pesquisa).

Um amplo estudo do Ipea sobre o setor de comunicação no País apresenta outra informação relevante, dessa vez sobre a penetração desse equipamento das nossas residências. A TV está presente em 96,9% dos domicílios brasileiros, conforme gráfico abaixo:

 

Imagem Fonte: Ipea, 2010.

 

Essa informação é parte da investigação Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil.

 

Você será seduzido?

Vamos, mais uma vez, recorrer a um conceito para entermos melhor o que esses dados representam. Trata-se da concepção de discurso inserida no contexto político. Quem nos ajuda nessa missão é o linguista francês Patrick Charaudeau, teórico de um campo de estudo chamado análise do discurso.

Em seu livro O discurso político, ele afirma o seguinte: “A política depende da ação e se inscreve constitutivamente nas relações de influência social, e a linguagem, em virtude do fenômeno de circulação dos discursos, é o que permite que se constituam espaços de discussão, de persuasão e de sedução nos quais se elaboram o pensamento e a ação políticos”.

Em poucas palavras, pode-se afirmar que o discurso político é condição necessária à ação política, por conferir motivação e sentido a ela. Ele deve ser entendido, sobretudo, como um ato de comunicação.

Imagine, agora, o alcance de um pronunciamento ou de uma inserção eleitoral ou partidária na TV. Imagine, principalmente, o potencial efeito daquelas inserções em formato de pílula ao longo da programação, as quais pegam o eleitor/telespectador de surpresa.

Não é de se espantar, portanto, que tempo na TV seja um dos temas centrais quando pré-candidatos se reúnem com potenciais aliados para tratar de alianças. Quanto maior o tempo de TV, maior o poder de barganha do ator político na mesa de negociação. E maior a chance de você, eleitor, ser seduzido pelo discurso do candidato.

 

 

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