“Falem mal, mas falem de mim” como estratégia

Juliano Domingues
Jornalista e Cientista Político
Professor de Comunicação & Política da Universidade Católica de Pernambuco
juliano@unicap.br

 

Se você costuma falar mal das pessoas, cuidado. Quem recebe a mensagem tende a atrelar avaliações e adjetivos negativos ao emissor e não ao alvo da crítica. É o que apontam evidências de estudos sobre a importância dos sentimentos no comportamento do eleitor.

 

No início deste ano, uma reportagem publicada na revista Veja tratou a respeito da aplicação de técnicas da neurociência ao contexto eleitoral. Na matéria, o repórter afirma que esse tipo de análise foi aplicada à campanha de reeleição do então governador Eduardo Campos em 2010.

 

Agora, nas eleições 2014, essa estratégia também parece se mostrar presente. Tem-se a impressão de que o comportamento de pré-candidatos é  guiado por uma das premissas centrais de estudos na área: frases negativas não pegam bem, mesmo se for para criticar oponentes.

 

Atacar o outro não seria, portanto, um caminho inteligente se o objetivo é conquistar votos. Além de ser ineficaz do ponto de vista eleitoral, essa tática possui o potencial do efeito reverso – o que você diz pode se voltar contra você.

 

Os dois principais pré-candidatos ao governo do Estado, Paulo Câmara (PSB) e Armando Monteiro (PTB), parecem atentos a esse aspecto. Tomemos como exemplo dois momentos recentes, alvo de matéria no Blog da Folha, com o título Geraldo Julio troca Farpas com Armando Monteiro Neto.

 

Momento 1

 

O pré-candidato do PSB, Paulo Câmara, tem evitado criticar publicamente seu principal adversário, o senador Armando Monteiro (PTB). Quem tem assumido esse papel é o prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB).

 

Como se trata, aparentemente, de um comportamento regular desse grupo desde o momento em que o nome de Paulo Câmara foi referendado pelo ex-governador Eduardo Campos, é possível levantar a hipótese de que se trata de uma estratégia em termos de comunicação político-eleitoral.

 

Geraldo Júlio, por não estar na disputa, seria o homem do embate, das ocasiões em que, provavelmente, mensagens de conteúdo negativo em relação a outros candidatos devem ser emitidas. Enquanto isso, Paulo Câmara seria poupado do confronto. A ele, estaria reservada a chamada “agenda positiva”.

 

Declaração atribuída ao prefeito do Recife noticiada no dia 23 de maio parece ilustrar esse padrão. Geraldo Júlio teria afirmado que a campanha de Armando Moteiro era baseada em duas mentiras e uma omissão. Os trechos abaixo reproduzem a declaração do prefeito.

 

A primeira suposta mentira: Armando tem experiência administrativa.

 

“O senador Armando Monteiro não tem nenhuma experiência administrativa para se colocar como uma pessoa experiente para governar Pernambuco”

 

A segunda suposta mentira: Armando é o candidato do governador Eduardo Campos.

 

“O senador não é o candidato de Eduardo Campos”

 

A suposta omissão: o petebista omite que é contra os trabalhadores.

 

“O senador sempre votou contra os trabalhadores. Todos os votos dele no Congresso Nacional foram contra os trabalhadores”

 

Ao, aparentemente, destacar o prefeito Geraldo Júlio para o embate com Armando Monteiro, o PSB cumpre, pelo menos, dois objetivos: atacar politicamente seu adversário com o intuito de desestabilizá-lo emocionalmente e, ao mesmo tempo, preservar a imagem do seu pré-candidato, já que as críticas não foram feitas por ele.

 

Por outro lado, Geraldo Júlio corre o risco de o eleitorado atribuir a ele a imagem que tenta atrelar ao seu adversário, a saber: mentiroso e omisso. Supõe-se que esse risco pode ser ainda maior diante de acusações desprovidas de informações factuais que a sustentem.

 

Qual a capacidade de convencimento, por exemplo, da sentença “Todos os votos dele no Congresso Nacional foram contra os trabalhadores”? Além de fragilizar o discurso de quem acusa, essa amplitude e subjetividade podem não só convencer o receptor, mas também sugerir desequilíbrio emocional por parte de quem emite a mensagem.

 

Momento 2

 

Diante das críticas, Armando Monteiro se comportou de maneira serena e adotou um tom irônico nas respostas. Esse parece ser o padrão adotado pelo petebista. Ao mesmo tempo, o senador tem procurado expor o que, de fato, aparenta ser uma estratégia do PSB.

 

“Mandaram ele (Geraldo Julio) cumprir um papel político e aí ele vem para o debate político e vem mal. (…) Geraldinho não tem treino ainda para o debate político. Esse é o problema. Eu fui responsável também por isso, pois o apoiei”

 

Observe que o senador utiliza um diminutivo para se referir ao prefeito Geraldo Júlio. No contexto do discurso, não sugere uma ofensa, mas uma aproximação, uma conotação, em alguma medida, carinhosa vinda de alguém com mais equilíbrio e experiência que compreende e perdoa a ansiedade do outro, jovem e imaturo.

 

Essa tática também pode ser ilustrada pelo trecho seguinte:

 

“Ele não sabe que a função pública não deriva apenas de quem participa da função Executiva, mas também dos poderes que constitui o Estado”

  

O senador assume, ainda, uma postura mais incisiva ao criticar seu interlocutor. Aliás, não somente ele – os alvos são Geraldo Júlio e Paulo Câmara. Os dois são iniciantes na disputa eleitoral, foram nomeados secretários e indicados à disputa nas urnas pelo ex-governador Eduardo Campos. Entretanto, a referência a ambos é feita por Armando Monteiro de maneira indireta:

 

“Nunca fui da burocracia. Essa experiência eu não tenho, mas as minhas funções foram sempre exercidas através do voto. E alguns sempre estiveram na vida pública pela via da nomeação”

 

Por último, vale destacar a forma como o senador Armando Monteiro justifica as referências que tem feito ao ex-governador Eduardo Campos, presentes, inclusive, em inserções de rádio e TV do PTB estadual:

 

“Eu também não descontruo o Governo Eduardo Campos porque foi exitoso e nós fizemos parte dele. Também não faço com Eduardo o que eles estão fazendo com Dilma. Isso é uma posição extremamente oportunista de dizer que ‘enquanto estive lá era tudo bom, quando saí ficou tudo ruim’”

 

Embora leia-se a palavra “oportunista”, observe que essa resposta também possui caráter de crítica indireta. Ela é aplicável tanto ao plano estadual quanto ao nacional.

 

Há, no entanto, uma característica desse trecho que merece destaque: o senador atribui “traição” e “ingratidão” ao comportamento dos seus opositores, mas o faz sem citar essas palavras diretamente. Mérito do emissor da mensagem. Ao agir assim, o senador se comporta estrategicamente e reduz o risco de ver sua imagem carregada negativamente por essas duas palavras. Já que, nesse caso, o emissor da mensagem é o próprio candidato, esse tipo de comportamento é fundamental.

 

Por outro lado, é razoável imaginar que Geraldo Júlio continuará à vontade para o embate ao longo da campanha. Como ele não é candidato, imagina-se que uma reação por parte do eleitor às suas declarações, neste momento, não representaria maior prejuízo a ele ou ao seu partido.

 

Mas cabe um questionamento: qual a chance deste mesmo eleitor atrelar o discurso negativo do atual prefeito ao candidato por ele defendido? Quem sabe? Esse é um dos riscos do confronto político.

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