Realpolitik em Sucupira

Juliano Domingues da Silva

Em tempos de realismo fantástico na política, imaginemos um encontro entre Nicolau Maquiavel e Odorico Paraguaçu. Não teria sido, em alguma medida, o que ocorreu no dia 17 de abril na Câmara Federal, com contornos de reality show?

Nesse exercício de imaginação, ao filósofo florentino caberia a dimensão realpolitik(ou de realismo político), cujo princípio é a observação da realidade como ela é e não como deveria ser. Atores políticos agiriam guiados pelo possível resultado dos seus atos, sem levar em conta aspectos ideológicos ou de fundo moral. Esses indivíduos são “ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante o perigo e ávidos de lucros”, conforme nos alerta Maquiavel.

Dos 367 deputados que votaram “sim”, 184 compuseram a coligação que, há um ano e meio, reelegeu Dilma Rousseff. Essa base original (PT, PMDB, PR, PSD, PRB, PDT, PP, PROS e PCdoB) se viu esfacelada. Apenas PT e PCdoB votaram integralmente com o governo. Em todos os outros houve algum grau de defecção, incluindo o PDT, cuja orientação aos seus parlamentares era a de votar contra.

Esse comportamento ilustra uma característica comum em democracias não consolidadas: a volatilidade partidária. A expectativa de poder tende a guiar a ação de boa parte dos partidos pouco enraizados na sociedade e frágeis do ponto de vista ideológico. As relações entre representantes e representados costumam ter um caráter personalista, não programático e orientado pelo clientelismo. É a nossa dimensão Odorico Paraguaçu.

O tom folclórico e pouco republicano da sessão que espantou parte da imprensa internacional é algo típico de países democraticamente frágeis. O localismo exacerbado nas referências dos deputados às suas cidades de origem pode ser creditado ao particularismo das práticas políticas e ao grau de representação de cada um dos deputados ali presentes.

Tome-se como ilustração o deputado menos votado eleito por São Paulo. Seus 22.097 votos em 2014 representam somente 0,1% do eleitorado daquele Estado. Sua dedicatória particularista antes de declarar o voto teve endereço certo: “em nome da minha família, em nome da minha região noroeste de São Paulo, a minha cidade natal”.

Seria racional esperar que ele ou tantos outros fizessem um discurso mais amplo e programático, sobretudo em ano de eleições municipais? A transmissão da sessão em rede nacional de TV explicitou quantas Sucupiras há na Câmara dos Deputados e o quanto há de realpolitikem cada uma delas.

 

Juliano Domingues da Silva é doutor em Ciência Política e professor da Unicap

Texto publicado no Jornal do Commercio no dia 27 de abril de 2016.

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