Dallagnol versus Lula

Juliano Domingues

 

Política pressupõe a disputa pela conquista da opinião pública, em uma batalha na qual o discurso é a principal arma. Um bom exemplo desse tipo de confronto ocorreu essa semana: o embate Dallagnol versusLula.

A coletiva da força tarefa da Lava Jato da quarta-feira (14) tinha como propósito formal apresentar dados sobre denúncia contra o ex-presidente Lula. O evento, porém, foi marcado por incontestável apelo midiático, o que motivou críticas tanto de simpatizantes quanto de desafetos do PT. Ganhou corpo a versão de que a formalidade teria sido apenas um pretexto para capturar a opinião pública.

A opinião é um julgamento sobre a realidade. Ela é fruto da percepção que possuímos sobre o mundo ao nosso redor, construída a partir das informações de que dispomos e baseada em uma boa dose de subjetividade. Como cada cabeça é um mundo, faria mais sentido falar em “opiniões públicas”. Entretanto, grupos políticos se esforçam para nos convencer do contrário. Para isso, embalam sob medida pacotes de opinião sobre o mundo e os disseminam. A depender da sua capacidade de propagação, uma opinião antes restrita a um pequeno grupo pode ganhar status de sentimento coletivo. Nesse caso, a diversidade de pontos de vista cede lugar à homogeneidade aparente. Constrói-se, assim, a opinião pública.

A apresentação do procurador da República Deltan Dallagnol e a repercussão gerada pelo fato ajudam a ilustrar esse processo. A expressão “propinocracia”, por exemplo, sintetiza uma opinião sobre a dinâmica da corrupção contemporânea no Brasil. A corrupção é um fato. Já o termo se trata de uma opinião sobre o fato. O mesmo pode ser dito em relação à ideia de “grande general”. Trata-se da opinião da acusação sobre o papel que o acusado teria desempenhado. No dia seguinte, Lula reagiu. Ao afirmar que “construíram uma mentira”, o ex-presidente emitiu uma opinião sobre a versão defendida pelo MPF. Ele também fez isso ao classificar a coletiva do dia anterior como “espetáculo de pirotecnia”. A coletiva é um fato. A pirotecnia é uma opinião.

A disputa pela opinião pública é um fenômeno típico da sociedade midiatizada, guiada pela autoridade da imagem e pela busca de visibilidade. O episódio Dallagnol versusLula é somente mais uma batalha nessa guerra por legitimidade.

 

Juliano Domingues é doutor em Ciência Política e professor da Unicap.

Texto publicado no Jornal do Commercio no dia 18 de setembro de 2016.

 

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Agenda de Pesquisa

Juliano Domingues

 

O impeachment de Dilma Rousseff é objeto de estudo exemplar para as ciências humanas e sociais. Por meio dele, a realidade se impôs e ofereceu uma extensa agenda de pesquisa em torno do debate sobre a qualidade da nossa democracia.

O volume de dados relativo ao caso é fantástico e pode ser facilmente acessado pelos interessados em adotar o evento como problema a ser investigado. Não faltam informações. Somente o relatório final, por exemplo, possui preciosas 27 mil páginas.

Ao longo dos últimos nove meses, as manifestações via mídias sociais demonstraram sua relevância. No Twitter, as hashtags #ImpeachmentDay, #RespeiteAsUrnas e #NaoVaiTerGolpe chegaram a liderar os Trending Topics mundiais. Durante votação no plenário da Câmara, em 17 de abril, foram 225 mil tuítes.

O impeachment também provocou uma avalanche de notícias na imprensa nacional e internacional. Editoriais, artigos e reportagens abordaram o evento sob os mais diversos enquadramentos e ressaltaram a necessidade de se investigar a relação entre mídia e política.

As atividades realizadas na Câmara e no Senado renderam um espetacular banco de dados audiovisual. Apenas a sessão de julgamento somou 68 horas de narrativas divergentes sobre a natureza e as reais motivações do afastamento da presidente. Disponível no Youtube, trata-se de material riquíssimo.

O volume de informação gerado pelo episódio sugere a dimensão da sua complexidade enquanto objeto de estudo. Entretanto, a ciência dispõe de ferramentas e estratégias de investigação que tornam possível sua análise, sob diversas perspectivas.

Decifrar o processo de impeachment com rigor teórico-metodológico e distante das paixões político-partidárias promete ser o principal desafio das ciências humanas e sociais nos próximos anos. Assim, será possível fazer inferências sobre a realidade e, com isso, compreender a dinâmica do evento, seus mecanismos causais e os interesses que o motivaram. Como diria Millôr, temos um longo passado pela frente.

Juliano Domingues é coordenador do Grupo de Pesquisa Políticas e Estratégias de Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação-INTERCOM

Texto publicado no Jornal do Commercio no dia 04 de setembro de 2016.