Juliano Domingues

 

Um espectro ronda a Europa e os EUA. É a intersecção entre Bernie Sanders e Trump; Tea Party e Occupy Wall Street; Podemos, da Espanha, e Freedom Party, da Áustria. Chama-se populismo.

 

O populismo é um modo de pensar e de fazer política. Sua lógica transita com desenvoltura da extrema esquerda à extrema direita, passando, claro, pelo centro. Dinâmico, pode florescer em ambientes autoritários e em contextos democráticos, apresentando-se por meio de um discurso simples e dicotômico.

 

A narrativa mais comum refere-se ao conflito “povo” versus “elite”; ou “the people” versus “the establishment”. A estratégia é se colocar como a voz do cidadão comum, cujas demandas foram negligenciadas pelos intransigentes governantes tradicionais.

 

A tese segundo a qual está em curso uma onda populista ganhou a capa da atual edição da importante revista Foreign Affairs. O tom é de apreensão, sintetizado já no título do artigo que abre o número. O texto “A marcha populista: porque o ocidente está em apuros” é assinado pelo renomado cientista político Fareed Zakaria. Sua análise e prognóstico não são nada animadores.

 

O mais recente livro de John B. Judis segue a mesma linha. “A explosão populista: como a grande recessão transformou a política americana e europeia” é sucesso de público e de crítica nos EUA. A publicação foi celebrada pelo The New York Times como um guia esclarecedor para entender a origem e o significado do fenômeno.

 

Não são poucos os estudos que apontam a América Latina como a grande pátria do fenômeno.  Para Judis, porém, as raízes do populismo remontam à Revolução Americana (1776) a ao ex-presidente dos EUA Andrew Jackson (1767-1845). A despeito disso, algumas características são básicas: diante de uma insatisfação com o status quo, ao qual se atribui a causa de todos os males, uma liderança carismática defende propostas pouco factíveis, mas de grande apelo popular. O tom é de personalismo exacerbado e desprezo em relação às instituições democráticas.

 

O objetivo do líder não é chegar a acordos, mas sacudir o cenário. Com isso, movimentos dessa natureza possuem o potencial de catalisar processos de mudança política, principalmente em tempos de crise. Não por acaso o populismo se expande na Europa e nos EUA. Como tem tudo para contaminar também as relações interpessoais cotidianas, é bom se preparar.

 

Juliano Domingues é doutor em Ciência Política e professor da Universidade Católica de Pernambuco.

Texto publicado no Jornal do Commercio no dia 27 de novembro de 2016.